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A VELHA GUARDA RECORDA, OS BOÊMIOS - CANTORES DA NOITE

A "VELHA GUARDA" RECORDA...

As primeiras parteiras, essas abnegadas criaturas que "ajudavam as crianças nascerem, quando Barra Bonita também estava nascendo", foram citadas no livro "Memórias de Barra Bonita" de Domingos Settimio Frollini. Entre as pioneiras: Anna Sabbatini, Paola Beltrane e Catharina Gottardo (Dona Catina). Em seguida, lembra a "velha guarda", dedicaram-se a esse nobre trabalho: Maria Vidal, Joana Fávero e Amélia Lodi Barioto, entre outras.
Numa época em que não havia os exames pré-natais, nem sistema previdenciário, nem planos de saúde, nem ambulatório ou hospital, essas senhoras, simples donas de casa e mães de família sem qualquer instrução de enfermagem ou medicina, tendo como conhecimento apenas a experiência da própria vida, enfrentavam com muita coragem e determinação, o difícil e arriscado trabalho de auxiliarem os parturientes a darem à luz.
Não tinham dia nem hora e, muitas vezes, debaixo de chuva e frio, caminhavam a pé, longas distâncias para prestarem assistência também aquelas mães que não dispunham de nenhum recurso. O pagamento, nesses casos, era gratidão e, quase sempre, o convite para ser a madrinha de batismo da criança recém nascida, estabelecendo laços de estima e afeto entre as famílias. À essas verdadeiras heroínas e, todas as que as sucederam nesse ministério, o reconhecimento e as homenagens dos barra-bonitenses.

... Nos carnavais do início do século, os foliões "levantavam a poeira das ruas" ainda sem calçamento e realizavam o corso, ao som das Bandas de Música, fazendo parada obrigatória no salão do Sr. Liberato Fraga, no Ideal Clube e na Sociedade Italiana, com os "cordões" visitando os locais em que eram realizados os animados bailes carnavalescos, quase terminavam ao amanhecer.
O crescimento da cidade e os novos clubes: AABB, Vila Nova, Ponte Preta, União, Operário, Botafogo, a "Panela de Pressão" e a "Turma da Madrugada" e a do Badu (Adib Mucare), passaram a realizar, com recursos próprios e grande criatividade, animados carnavais de rua e de salão onde reinavam soberanos: os foliões, os confetes e as serpentinas, e os lança-perfumes (estes proibidos em 1961, pelo então Presidente da República Jânio Quadros).
Datam do final dos anos 40 as novas iniciativas em promover o carnaval de rua, com a chegada do Rei Momo (de trem, barco, caminhão e até de avião) que era o ponto de partida para o corso carnavalesco pelas ruas centrais da cidade, com a participação dos clubes, blocos e carros alegóricos. Essa promoção era liderada pelo Sr. Cezar Saffi (Tché), um animado folião e um "expert" também na organização de eventos esportivos, que muito divulgaram nossa cidade. O Badu, folião nato, liderava uma turma de passistas e ritmistas que eram uma sensação.
Na década de 1950, brilhou a "Turma da Madrugada. A partir de 1964, a Avenida Pedro Ometto passou a concentrar todos os corsos carnavalescos que, anteriormente, eram feitos nas ruas centrais da cidade. A influência dos meios de comunicação: jornais, rádios e TV, com as transmissões diretas dos desfiles e bailes de Carnaval nas grandes capitais do país, motivaram clubes, agremiações e blocos a se organizarem e fazerem do Carnaval de Barra Bonita, também uma atração turística. A primeira "Escola de Samba" local foi a Camisa Amarela da Associação Atlética Ponte Preta (atual Ideal Ponte Clube) abrindo espaço para as demais que surgiram posteriormente, determianando a inclusão do Carnaval de rua no Roteiro Turístico de nossa cidade.

... As primeiras extrações de areia e pedregulho no Rio Tietê, eram verdadeiras provas de resistência física, tamanho o esforço que exigiam daqueles que executavam tais serviços. A lancha ficava ancorada no meio do rio e as extrações eram feitas com uma pequena caçamba, presa na ponta de uma pequena vara de eucalipto, a qual era atirado no fundo do rio para, apenas com a força dos braços, sem qualquer aparelho ou mecanismo, ser trazida ou içada cheia do material, que era depositado dentro da embarcação. Depois de lotada, a lancha era conduzida até o porto de areia, para ser descarregada, também manualmente, com pás. Os pioneiros dessa atividade foram os senhores: Francisco Alves (Chiquito), Geraldo Grizoni, Graciano de Oliveira e, mais tarde, Joaquim Angelo Momesso.
O transporte de madeiras por via fluvial, um trabalho também difícil e arriscado, era feito pelos irmãos José e Júlio Rodrigues Azenha, imigrantes portugueses que aqui se fixaram. As toras (enormes troncos de árvore) eram amarradas umas nas outras e vinham, Rio Tietê abaixo, boiando pela força da correnteza e conduzidas por eles até o ancoradouro (atual área turística). Essa forma de transporte era conhecida como "jangada".

... As antigas festas juninas com as quais as famílias e devotos homenageavam: Santo Antonio, São João e São Pedro, iluminando a cidade e a zona rural com o clarão das enormes fogueiras e o explodir de fogos de artifício. Depois do levantamento do mastro com as imagens dos Santos, da reza do terço e das ladainhas contadas em latim (na maioria das vezes, pelo senhor Carlos Tozelli que, além de devoto, era um grande conhecedor da liturgia católica), a farta distribuição de quentão, pipocas e doces caseiros. As crianças se divertiam com os "fósforos de cor", "estrelinhas" e "busca-pés". As moças "tiravam a sorte", invocando a ajuda dos santos para um bom casamento, os rapazes enviavam "correio-elegante" às jovens e as famílias se confraternizavam, aguardando a chegada da meia noite, para a tradicional "passagem da fogueira", o ponto alto da festa! Uma camada de brasas acesas era espalhada no chão e atravessada pelos devotos descalços sem queimarem os pés! Um ato de grande fé e religiosidade que emocionava os fiéis e desafiava os mais incrédulos! Nos sítios e fazendas, a animação era ainda maior, com os bailes ou "arrasta-pés" nas tulhas ou nos improvisados galpões de bambus, cobertos com encerados onde, sob a "batuta" dos sanfoneiros, dançava-se até o sol raiar.

... As benzedeiras e benzedeiros, pessoas dotadas de muita fé, religiosidade e grande energia interior que com suas rezas, bênçãos, orações e "simpatias", aliviava, os sofrimentos de jovens e adultos, com crises de asmas, bronquite, mau jeito, caxumba, torções, torcicolos, e estiramentos musculares. Aliviavam principalmente as crianças e os nenéns "carregados" de quebranto, mau olhado, lombriga assustada e outros males que afligiam os pais, os filhos e toda família. A "receita" após bencimento era um banho morno e um chá quente de poejo ou hortelã ou cidreira. Haviam também, os benzedores de animais que com orações e força do pensamento curavam as "bicheiras" do gado, cavalos, cachorros e outros bichos. Esse verdadeiro dom de Deus foi exercido por muitos anos pelas sras.: Genebra Mascaro, Olímpia Buonarotti (avó), Maria Vidal, Josefina Guedin Stanguerlin, Lucia Scarpella Sargentim, Francisca Alves Pereira Borges, Leta Volpi, Esterina Lodi, Alzira Rodrigues, Joana Moscato, Joana Stevanato e muitas outras, sendo a mais conhecida delas Francisca Fagá, (dona Francisquela), que transferiu esse dom para sua filha Isabel Fagá Cabeça (Isabilu), que como as demais esta generosamente, sempre pronta para, com suas orações e bênção, aliviar as aflições e sofrimentos daqueles que a buscam. Entre os homens: Augusto Bombonatto (também massagista), Satyro Stangherlin (icterícia) e José Biazetti, este, igualmente, um hábil castrador de animais.

... As "voltas no quadrado", como eram chamados os passeios a pé, feitos no quarteirão entre as ruas: 1º de Março, Major Pompeu, Campos Salles e Salvador de Toledo, até o início da década de 1950. A maior parte dos namoros de então, se iniciava com as "voltas no quadrado". Os moços faziam o percurso sentido contrário a das moças, para que os olhares se cruzassem, confirmando o encontro. Os mais românticos ofereciam as suas eleitas, um cobiçado botão de rosa "príncipe negro" ou um perfumadíssimo "Jasmim do Cabo", apanhados as escondidas entre os belíssimos canteiros cultivados pelo sr. João Cestari, responsável pelo jardim da Praça São José. O namoro era considerado "firme" quando o casal era visto nos fins de tarde admirando o "por do sol" na ponte Campos Salles; tomando os deliciosos "sorvetes de taça" no amplo salão do Bar Güther; freqüentando as "domingueiras dançantes" (com vitrola) no Ideal Clube ou na AABB, ou ainda, na confeitaria Ideal, saboreando os insuperáveis doces feitos por dona Linda CavaLari, antes de encerrar o domingo assistindo um bom filme no Cine ldeal, no prédio da Sociedade Italiana.


... O Carnaval. Antigamente o carnaval de salão predominava, com os clubes se esmerando em oferecer aos foliões: diversão, música, alegria e animação, com muita serpentina, lança-perfume e as batalhas de confetes que ficaram famosas, na Sociedade Italiana, Ideal Clube, AABB e Bar do Liberato Fraga. Mais tarde o Vila Nova, Ponte Preta, Botafogo, Operário, "Panela de Pressão" e outros também realizavam, com sucesso, seus carnavais. Os blocos e cordões eram iniciativas de moças e rapazes que, geralmente inspiravam-se em fatos e coisas da moda de então utilizando-as como temas de suas fantasias, com as quais desfilavam em veículos ou a pé pelas ruas centrais da cidade, entoando os sucessos carnavalescos de todos os tempos, ao som do conjunto musical, cujos integrantes se acomodavam e equilibravam na carroceria de um caminhão.
O corso terminava antes das 21 horas e os foliões já se dirigiam aos salões para aguardarem o início dos bailes e sambarem até o amanhecer, depois das quatro noites de folia, vinha a quarta-feira de cinzas e os quarenta dias de quaresma, durante os quais nem se falava em bailes e os salões permaneciam fechados.


OS BOÊMIOS - CANTORES DA NOITE
Entre os cantores, seresteiros e conjuntos musicais verdadeiras "pratas da casa", que deixaram saudade em sua passagem pelas "noites e bailes" barra-bonitenses, valemo-nos das prodigiosas "memórias vivas" da cidade que citam entres suas lembranças, a primeira serenata com vitrola (de corda, movida a manivela) realizada por volta de 1926, pelos jovens: José Alho, Tonico Mascaro, Vitor Reginato, Satyro Stanguerlin e José Andreoli. Em 1929, outro grupo de jovens instrumentistas amadores, chefiados por Carlos Nunes Sumares (Carlito) formou o conjunto "Barra-Jazz" com os irmãos: José e Pedro Guzzo (saxofone e trombone), Antônio e Caetano Bertagnoli (pistão e clarinete), contanto ainda com Antônio (Niquito) Ruiz (trombone); Miguel Calçade (violino), Lyrio Carnevalli (bandolin), José Alves (bateria) e Ricieri Negrin (banjo).
O final da década de 30, trouxe, entre os "Garotos do Tietê" cujos componentes eram os jovens: Lauro Gerin, Mário Guzzo,Thomas Fagá e os irmãos Pascoal e Antônio Ragoni, mais conhecidos como Pata e Canjiquinha.
Em meados dos anos 40, formou-se o "Conjunto Vocal Esponja" integrado pelos irmãos: Paulo e Geraldo Francisco; Felipe e Gervásio Frollini; além de Omir Zambello, Álvaro (Baiano) Bressanim e Bernardino Santilli, que passou a animar os bailes e festas locais.
Nos anos 50, um grupo de jovens residentes no Bairro da Estiva, organizou o conjunto musical "Marujos do Samba", integrado, entre outros, por: Liberino Spaulonci, Arlindo Santili, Eugênio Frasseto, Miguel Archangelo Rizato, Laurindo Céspedes, Antonio Finatto; os irmãos: Luiz (Bio), Faustino (Tino) e Laércio Lourenção; João Nelson e José Braz e como o cantor o jovem Lázaro (Lazinho) Castellari. Esse conjunto durante muitos anos, foi a garantia de sucesso dos bailes, festas e carnavais do Vila Nova Futebol Clube e AABB e cidades vizinhas.
Uma dupla de violeiros-seresteiros sempre é lembrada por aqueles que vibraram com suas serenatas: os jovens Eugênio Benvenutti e Augusto Fagá.
Reunindo músicos amadores com experiência de outras formações musicais, surgiu também, em meados de 1950, "Raul e seu Conjunto", liderado por Raul Ferrari (funcionário da Delegacia de Policia), que possuia como vocalista: Aparecido da Silva (Cido) e Ana Maria Fornazieiro (membro da pioneira família Lodi), uma garota ainda, mas possuidora de uma voz afinadíssima que, igualmente, foi a "lady-crooner" da "Orquesta Tangará" fundada e dirigida por João Raffa, conceituado dentista, e apreciado cantor de tangos e boleros nas horas de lazer.
Ainda na década de 1950, Carlos Bottaro - o popular "Carlito" - organizou o "Carlito e seu Conjunto" com músicos amadores que até hoje, mantendo ainda alguns elementos pioneiros, abrilhanta as festas e bailes e os carnavais barra-bonitenses (só na "AABB" tem mais de 30 carnavais). Como uma grande família, além do titular, em suas várias formações ao longo dos anos, integraram o conjunto: seus irmãos Gilberto e Idílio Bottaro; os Céspedes: Waldemar, José (Quinho) e José Luiz; os Lourenção: Bio, Tino e Laércio e os vocalistas: Lazinho Castellari, Aparecido (Cido) da Silva e Benedito de Paula Furriel (Burrinha).
No meio de tantos conjuntos, não podia faltar um "Conjunto Regional". Um deles foi formado por Felippe Frollini e Tino Lourenção (violões); Hílario (peixe), Bressan (cavaquinho) e José Dutra de Barros (flauta). As "noites cheias de estrelas" ganhavam mais romantismo quando o "trovador" Mário Bellucci se juntava ao grupo.
A "Turma da Madrugada" talvez tenha sido a última representante dos boêmio-cantores da noite, por puro romantismo. Durante mais de vinte anos (1956/1970) essa "turma" embalou os sonhos de muitas jovens com suas serenatas inesquecíveis. Sob, a luz da lua e o sereno da madrugada, o trio formado por: Geraldo Francisco e seu violão, Chiquinho Stangherlin e Harrisson Arradi, juntava suas vozes harmoniosas e partindo da sede da AABB (ainda na rua Campos Salles) percorria a pé as ruas até então desertas e silenciosas de nossa cidade, cantando (e encantando) seu repertório apaixonado, onde cada música era uma mensagem com destino certo. A "Turma da Madrugada" possuía um elenco notável de cantores e acompanhantes: Omir Zambello, Wilson Souza Dias, João Raffa e Francisco Cerny, este que executava tangos com maestria no seu bandoneon. No grupo, também dois rapazes ainda bastante jovens que, iriam ficar famosos: Odnilo Romanini - no canto lírico - e Paschoal Todarelli, o nosso inesquecível Belmonte - na música sertaneja.
Ao longo dos anos integraram a "famosa" turma: Lauro Gerin, Divo Bombonatto, Fadlo Nahás, Vadinho Pompeu, Gerson Reginato, Adibe Mucare (Badua), Gervásio Frollini, Alberto Arradi, Emilinho Gotardo, Luiz Alves (Friaça), Mário Olenski, Walter Munduruca, Laércio Stangherlin, Bruno De Marchi, Wadinho Martins, Ruber Santiago, Carlos Benfatti e muitos outros que fizeram o coro e o roteiro desses boêmios românticos, não só nas madrugadas mas, também, no carnaval de rua, quando requisitavam a criatividade a bom gosto do carnavalesco Irio Bombonatti, e a participação indispensável dos grandes foliões Maria Dolores e Manoel Maylart (Nega e Maneco), Ogmar dos Santos (Bimbo), Paulo Marconi, Joel Mascaro e mais uma dezena de acompanhantes e apaixonadas musas inspiradoras, cujos nomes o Chiquinho Stanguerlin não revela, nem sob tortura, mas que estão gravados no coração de cada um de seus integrantes. 

 
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